segunda-feira, 19 de julho de 2010

"Quem um dia já catou mais de 20 dúzias de caranguejo em três dias hoje não consegue nem três"

Frederico Goulart - A Gazeta

Há nove anos, quando acordava cedo para mais um dia de sua dura rotina de trabalho como catador de caranguejo, Charles André Rosa, hoje com 39 anos, carregava consigo a certeza de que ao final do dia ele traria o suficiente para o sustento de sua filha recém-nascida.

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Quase uma década depois - e muita poluição no meio desse caminho - a certeza deu lugar à dúvida e à necessidade de mudança de vida. Charles teve que se adaptar a uma nova função, para ter o mínimo de dignidade na hora de voltar para casa.

"A falta de caranguejo nos manguezais da Grande Vitória me fez passar a pescar peixes, o que representa uma renda muito menor. Agora nós, ex-catadores de caranguejo, temos que arrumar um jeito de comprar um barco grande para pescar em alto-mar, pois continuar assim não dá", diz.

Pescador há mais de 20 anos, Charles se criou e na comunidade de Nova Canaã, em Cariacica, e hoje faz as contas de seu prejuízo. "Em três dias no mangue, eu chegava a pegar até 20 dúzias do crustáceo. Hoje, quem sai não pega nem três. Não vale a pena. Um quilo de peixe a gente vende a R$ 5, já a dúzia de caranguejo vendíamos a R$ 20", detalha o pescador que faz questão de lembrar que o problema que começa ali termina no consumidor. "Hoje o produto está muito mais caro."

Amigo de Charles, Adílson Lucas Vaz, o Xaropinho, de 50 anos, enfrenta a mesma dificuldade. "Há 10 anos eu tirava daqui nada menos que 100kg de marisco. Hoje, não tiro nem 40kg. É muito lixo e pouco peixe", desabava.

Extinção
Rosinéia Pereira Vieira, presidente da associação de pescadores de Porto de Santana, é outra que engrossa o coro dos descontentes: "Nos últimos tempos, pescamos 70% a menos. Caranguejos, hoje só existe em São Mateus e Santa Cruz. Em Vitória está tudo acabando, por causa da poluição", lamenta.

Documentários mostram problemas
A dificuldade enfrentada pelos catadores de caranguejo e pescadores de Cariacica motivou a produção de documentários expondo todo o problema. Além de protagonistas, eles também foram co-produtores dos vídeos feitos em parceria com o Instituto Marlin Azul. A iniciativa faz parte do projeto "Povos e Mangues: o Audiovisual na Educação Ambiental de Cariacica", desenvolvido desde 2009.

Na última segunda-feira, foi a vez do lançamento do documentário "O Povo do Mangue", realizado pela Associação de Pescadores Artesanais da Grande Nova Rosa da Penha (Ascapenha). A obra - que integra uma série de três documentários - aborda tudo o que ameaça a sobrevivência do manguezal.

Os vídeos são resultados das oficinas gratuitas realizadas pela instituição junto a trabalhadores de três associações de Cariacica (Porto Santana e Nova Canaã são as outras).

Formação
O projeto também ofereceu formação nas áreas da linguagem e das técnicas audiovisuais. A construção do roteiro aconteceu de forma coletiva no decorrer dos encontros com a equipe do instituto. Depois, cada associação montou um plano de produção e de filmagem com a orientação de profissionais e, em seguida, gravou as imagens e entrevistas.

Além do Instituto Marlin Azul, o projeto tem patrocínio do Ministério da Justiça, e a parceria da Secretaria de Meio Ambiente e da Secretaria de Educação da Prefeitura Cariacica, além da ONG Bioma Brasil.

Projeto pode ajudar a repovoar os mangues
Um projeto que está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) vai ajudar a repovoar o manguezal de Vitória, trazendo esperança para os catadores de caranguejo que dependem desse ecossistema para sustentar suas famílias. A ideia é criar larvas de caranguejo-uçá em um viveiro e depois soltar os filhotes no mangue. O Laboratório da Base Oceanográfica da Ufes, em Aracruz, programou soltar neste ano cerca de 20 mil megalopas - larvas de caranguejo-uçá. Atualmente, há cerca de 135 famílias que dependem da cata dos caranguejos para se sustentar.

Reprodução: Gazeta on Line (14/07/2010)

Foto: Solange Souza

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